Testemunhos de Devisa

Posted: by O Boss in

10 Anos de Teatro na Escola


     Não é tarefa fácil resumir, em poucas linhas, dez anos de vida. Mais do que as dez Mostras de Teatro Escolar organizadas, as peças, as oficinas, os cursos e os trabalhos apresentados, foram os processos, as vivências e os amigos, que mais me marcaram.

Desde a discussão de uma ideia, de um texto, até à apresentação do produto final, somam-se as etapas de construção, as experiências, a testagem das soluções, o aperfeiçoamento do processo criativo que tem apenas como limite o  tempo disponível até à estreia; é todo um quotidiano vivido nos bastidores, estranho e incompreensível para muitos,  misterioso e mágico para nós que o vivemos.

Esta vivência é, em muitos aspectos, igual à de tantos outros grupos; discutimos, trabalhamos, rimo-nos, zangamo-nos, choramos, sentimos. Mas é também diferente.
Há, desde logo, uma maior responsabilização, individual e colectiva, porque trabalhamos na base de compromissos assumidos perante a escola, o Núcleo e nós próprios, e porque o resultado deste trabalho será objecto de escrutínio público; daí, que a solidariedade e a colaboração entre todos seja fundamental e haja a consciência de que é do esforço de cada um que todos nós dependemos e a certeza que cada um de nós crescerá contando com a ajuda de todos.
É diferente porque não nos limitamos à passividade; pensar, actuar, criar, apaixonadamente, um universo perspectivado à nossa maneira, sem estarmos condicionados às opiniões dos outros.
É diferente porque nos ajuda a conhecer as nossas limitações e, quantas vezes, a superá-las; basta querer, basta trabalhar, basta acreditar em nós.

E, à medida que os anos vão passando, e o grupo se vai renovando, aproveitamos o último dia da Mostra para rever antigos companheiros, reviver caminhadas passadas e projectar novos futuros porque, nesse dia, eles aparecem não para ver mais uma peça de teatro; aparecem porque querem aparecer, porque já lá estiveram como actores e não como espectadores; aparecem porque se atreveram, porque fizeram e porque conseguiram.

Mais do que fazer bom teatro, quero fazer bons amigos e celebrar com eles a conquista de cada desafio a que nos propomos. Quanto mais exigente, tanto melhor; porque acredito que só com actores responsáveis podemos contribuir para que este mundo seja (um pouco) melhor.

Crepi il Lupo!

Jorge Curto (O Boss)



Eu mesmo em “Marcado pelo Tipex


... e agora a palavra aos companheiros... aqueles que escreveram uma memória para as comemorações dos 10 anos.



   A minha permanência nos Devisa foi curta comparada com muitas pessoas que cá andaram. No entanto, posso dizer que passei por momentos muito marcantes, e que, acima de tudo, aprendi bastante com eles. Conheci muitas pessoas e fiz amigos. Ri, chorei e se hoje me considero a pessoa que sou, deve-se, um pouco  a estes dois anos. Aprendi que apesar de sermos todos diferentes, com essas diferenças conseguimos ajudar-nos, ultrapassar barreiras e demonstrar a toda a gente que sim, nós somos capazes de sermos bons naquilo que fazemos.
Para muitos, somos apenas mais um grupo de teatro escolar, mas isso não é verdade. E penso que o conseguimos demonstrar em cada mostra de teatro escolar que é realizada. E isso deve-se ao Jorge Curto. Ele é mais que um professor, mais que um encenador: é nosso amigo, é meu amigo.
Em relação à minha experiência em palco acho que se torna um pouco indescritível, visto que é algo tão pessoal que só quem passa por lá é que consegue perceber as emoções que cada um de nós tem naquele momento. É uma mistura de nervosismo, ansiedade, receio e ao mesmo tempo de euforia, de energia sentida. De tentar que aquele momento seja perfeito e que aquele público goste do papel que estamos ali a representar. E que faça com que aquele aplauso final seja mesmo merecido, e que haja vontade de chegar lá no dia seguinte e fazer melhor, e melhor, e melhor.
Este ano realiza-se a décima mostra de teatro e é com grande pena que digo que não faço parte deste novo elenco. No entanto desejo a maior sorte a quem faz, que aproveite ao máximo cada dia de mostra porque são momentos únicos. E eu vou estar lá, na plateia a torcer para que tudo corra bem, e não posso deixar de confessar com uma certa inveja saudável destes meus novos companheiros.
Ao Jorge Curto tenho a dizer-lhe obrigada. Em primeiro por me ter aceitado lá, por me ter ensinado inúmeras coisas e por me ter ajudado a crescer e tornar-me naquilo que hoje sou. Porque por mais que muitos pensem que naquelas horas de ensaio só se faz teatro, é mentira. Lá aprendemos diversas coisas. E aconselho a todos que querem experimentar e tenham receio de o fazer, que se inscrevam. Pois vão ver que não se vão arrepender.


 Ana Serra em "A Loja dos Suicídios"






In bocca al lupo…

É difícil passar para escrito a experiência que tive nos Devisa, uma vez que os Devisa não se descrevem, sentem-se e era na roda onde se faziam as confissões. 
Os Devisa foram/são (de uma forma mais ou menos presente) parte integrante da minha vida, uma família formada por estranhos que ficaram companheiros para sempre, como se de um só corpo se tratasse. Todos os seus membros são imprescindíveis.
Aprendemos valores, virtudes, vicissitudes, crescemos em conjunto, aprendemos a chegar mais longe, alcançar a linha ténue para além dos nossos tão subestimados limites, as formas mais recônditas e estranhas do nosso ser, invadimos a esfera do outro e vice-versa. Ninguém precisa de espaço, somos O espaço, seja no ginásio, na sala 21, em Portalegre, na Benedita, num palco de rua, somos Devisa onde tiver que ser. A teoria é a do “Veni, vidi, vici”.
Foi aberto um mundo diferente à nossa volta, onde o cerne está nos pormenores, e o importante não é a chegada, é a viagem, certo Boss?
Guardarei para sempre todas as personagens que passaram nos palcos da minha vida.
Só sei que ansiava por sexta à noite todas as semanas e aqui me revelava como a mais ninguém.
Meus caros, nos Devisa, nem o céu é o limite.
Lembro-me, justamente, do 1º dia neste grupo e não visualizarei um último, espero que não chegue (perdoem os clichés, mas é mesmo assim.)
Somos um símbolo de um barco distinto, aprendemos a teatrar (seja lá o que for) desde Óscar Wilde a Shakespeare, desde a voz e dicção à acção física e mental. “Mas porquê? Como?”
Allegria.. Como uma fúria de amar.. alegria!

Desafia-nos a ser Extraordinários, a Viver Intensamente e Sempre a Amar.

… Crepi il lupo !


 Anabela Jacinto em "Justamente"



     Após a recepção do mail do Boss, passaram-se alguns dias até que tive tempo para poder escrever algumas linhas.
Depois daqueles dois lindos anos nos Devisa, onde numa das fichas de inscrição escrevi “tiatro” bem posso dizer que foram dos melhores anos da minha vida.
Sei que não se deve dizer nunca mas, neste momento, não creio que me possa esquecer de todos os dias, meses, anos nos Devisa, de todas as pessoas que compartilharam o palco comigo nas duas peças em que entrei (Justamente e Salomé), as pessoas que conheci tal como a Vanda, (aliás, mais alguém viu a Vanda?) que foi uma das pessoas que não ficou por motivos superiores, mas com quem eu teria adorado compartilhar o palco. Não me devo esquecer também daqueles que foram tentando mas não aguentaram; bem, como o Boss diz, nós somos especiais.
Se alguém quer saber o que é um Devisa, bem, não fique na dúvida pois em caso de dúvida é sempre bom perguntar ao Boss, porque ele sempre sabe como responder.
Bem, confesso que ao início, não tinha bem noção do que ia relatar para todos aqueles que poderão ler o que escrevi, mas acho que todos se devem ter deparado com o mesmo que eu, pois para descrever como é ser um Devisa ou como é estar em palco, não acho que seja completamente possível, desculpem se erro no que digo, mas há coisas que só no preciso e devido momento se sentem ou se conseguem sentir.
Bem este foi o meu breve relato de como é ser um Devisa.


Carlos Veiga em "Justamente"


Nas horas mais difíceis da vida, temos de levantar a cabeça, encher o peito, olhar em frente e dizer bem alto: ‘dasssse!” in O Nosso Blog

Os momentos que passei com os DEVISA são das melhores recordações que tenho do tempo do secundário… Desde as pessoas e amizades que fiz, às peças em que entrei. Tive oportunidade de fazer “Aqua” e “O Nosso Blog”. Esta última é a que tenho mais lembranças porque a apresentamos na V Mostra de Teatro Escolar e, por isso mesmo, tivemos que a representar durante mais tempo.
Apesar de só ter feito parte deste grupo durante um ano, as lembranças são inúmeras. Antes das actuações, estava sempre presente o nervoso miudinho, a ansiedade, a adrenalina… Enquanto no palco, os nervos eram momentaneamente esquecidos.
Estar em cima do palco foi um dos privilégios que pude gozar, encarnar as personagens e vivê-las, poder ser outra pessoa por breves instantes. Tão especial como estar no palco, só os momentos antes das actuações…únicos, excepcionais e nossos.
Em termos de esquecimentos, para mim nunca foi difícil decorar os textos, mas houve uma ocasião em que me escapou o texto da memória e na altura safei-me, porque tinha combinado com o Carlos a deixa se nos enganássemos…se calhar foi por isso mesmo que me enganei =).
Também fizemos “O Nosso Blog” quando fomos a Portalegre e lembro-me que depois de ter feito uma personagem meia nojentinha, a seguir entrei no palco para fazer outra personagem e ouvi alguém do público dizer: Lá vem a nojenta outra vez. Na altura, fiquei sem saber muito bem o que pensar, até que o Jorge me disse: Mas não querias que a tua primeira personagem fosse nojenta? Então, se conseguiste passar isso para o público, óptimo! Obrigada Jorge, pelas palavras sábias, pelas marteladas na cabeça e pelos ataques de fúria. O companheirismo e o apoio de todos esteve sempre presente e tenho pena de não nos encontrarmos mais vezes, mas quando acaba o secundário a organização do tempo torna-se muito mais difícil. 
E, por isso mesmo termino, deixando um abraço apertado a todos aqueles que estiveram comigo nesse ano e para os outros que conheci, mas não tive o prazer de contracenar e, claro, ao Boss. A todos os que ainda virão…muita merda!





Catarina Meireles em "O Nosso Blog"





Não consigo dormir.
Não consigo fazê-lo sem antes vos dizer aquilo que quero.
E quero.
“Devisa”...?! É um privilégio, um recanto para quem arrisca e se arrisca, para quem abraça um desafio e enfrenta novas experiências. Todas as amizades, as vivências, as incoerências, as zangas e os abraços sentidos, as férias sem férias, as viagens... são as recompensas dessa coragem!
Para mim, os “Devisa” são um clã, um grupo de pessoas diferentes que se descobrem e se refazem! Esses “Devisa”, são gente que se dedica e trabalha! São uma equipa!
Houve tempo que se tivesse que saltar sem rede só o faria com os que eram, que foram e que serão sempre os “meus Devisa”! “Devisa” são recordações, bons momentos, sorrisos e sonhos.
Descobri o palco pelas mãos dos “Devisa”, pude ser: poeta, um lixeiro, um palhaço, uma senhora africana, uma deusa, uma aranha, uma professora louca, uma pintora, uma empregada.... e tantos outros mais! E todos eles me acompanham! Amo o teatro, sei sentir teatro e devo-o aos “Devisa”, ao Jorge!
Não podemos falar de “Devisa”, sem falar em Jorge! Devem estar a pensar, mas quem é esse????! Ó pá... é aquele que nos faz ir mais longe, que nos põe a pensar, que nos permite ir onde as nossas pernas não vão e descobrir mais um pouquinho de nós mesmos! É um gajo admirável, de quem tenho orgulho e respeito com todo o meu ser!
DEVISA… demasiadamente humano! Irremediavelmente em mim!
Obrigada.


Eduarda Cadeco em "Está aí Alguém?"


Existem duas palavras apenas para definir este tão louvado grupo os “Devisa”, e são elas família e amor.
Família porque somos tratados como igual, porque se um de nós tiver um problema todos sentem isso, porque nos apoiamos mutuamente e suportamos as dores uns dos outros. Quando estamos sós e com medo ou receio de algo que ainda está para vir, há sempre alguém pronto a nos dar a mão, a limpar as lágrimas e nos levantar do chão. Somos como uma família que partilha segredos, angustias e alegrias, se um cai, caímos todos, porque somos um grupo uma família e isso não existe isoladamente. A verdadeira alma do teatro reside na confiança que depositamos naqueles que nos rodeiam.
Amor, pelo o teatro, pela arte de representar, pela sensação avassaladora que é partilhar um palco com pessoas nas quais confiamos plenamente. É isso que nos une, a paixão pelo teatro. Entrei neste grupo à procura de uma nova experiência e encontrei muito mais do que isso, encontrei um caminho, uma nova perspectiva da vida. Aprendi aqui os valores que ainda hoje guardo, isto é mais do que apenas representação. Uma vida na qual não havia ainda um sentido, encontrou um apoio, um caminho a seguir, uma nova família, um novo mundo, um novo olhar perante os outros e perante nós mesmos.
Tenho óptimas recordações do tempo em que estive neste grupo, lembro-me como se fosse hoje no dia da minha estreia. Estava tão nervosa, era uma miúda no meio de todos aqueles gigantes, e mesmo assim não me senti menos que eles, apoiaram-me sempre, não me fizeram sentir inferior por instante que fosse. A minha primeira peça nos Devisa foi “Deus”, estreei-me no Fundão, mas que maravilhoso texto este, e o elenco? Isso sim, um elenco glorioso, pessoas de alma e coração dedicadas a fazer divertir o público, sem se esquecerem de se divertirem também. Nesse ano as coisas foram complicadas, eu era nova e quase todos os Devisa dessa altura estavam na fase de abandonar o grupo e seguir as suas vidas. O medo que tinha era imenso, pensei que nada poderia superar aquele grupo maravilhoso que me acolheu de coração. Mas a verdade é que quando uns vão, outros entram e isso é tão bom como foi com os primeiros porque voltamos a partilhar tudo com novas pessoas que se juntam pelo mesmo motivo que nós, a paixão pelo teatro.
Lembro-me que depois da “deus” fomos convidados para fazer a inauguração da piscina da nossa escola, na qual apresentamos o “Aqua”, uma dramatização de uma colecção de poemas. Foi uma experiência completamente nova, a dramatização de poemas é bem diferente de uma peça teatral, não vou dizer que mais difícil, mas também igualmente complexa. Os dias de ensaio na piscina eram uma aventura, a água que não parava de correr fazia tamanho barulho que era complicado ouvir-se as coisas que dizíamos do outro lado da piscina. Foram sessões e mais sessões que nos ajudaram a ultrapassar esse obstáculo. Um espectáculo diferente no qual tive a honra de participar, foi indescritível.
Todas as peças que fiz me dão uma enorme felicidade ao relembrar-me delas. Depois da dramatização dos poemas, ainda no mesmo ano, veio “O nosso Blog”, nesse ano fomos a Portalegre, ficamos a dormir numa residencial, nuns beliches que tem uma história bem grande para contar. Ficaram lá inúmeras coisas das quais nos esquecemos, no meu caso perdi uma t-shirt, lembro-me de também ter ficado sem uma almofada e uma caixa de bijuteria… Estes momentos também são bastante importantes. Devisa não é só teatro é muito mais que isso, são também os momentos em que rimos das nossas próprias patetices.
“Justamente”, esta peça foi, sem sombra de dúvida, uma que mais gozo me deu fazer. Lembro-me do primeiro impacto, quando lemos pela primeira vez o texto, foi um sentimento indescritível a realização desta peça, em todos os sentidos. Nos ensaios, nas apresentações, na escolha dos figurinos, nas descobertas de actores muito talentosos. Foi um ano de novas experiências. E ganhamos uma nova amiga a “Creusa”, sim estes momentos valem a pena recordar com muito amor, quando nós a tentamos vestir, e pô-la toda janota, momentos de grande alegria e grandes gargalhadas. Este foi o primeiro ano que fomos à Benedita, lugar que nunca mais nenhum de nós esquecerá, aquele palco gigante, onde éramos apenas um pontinho minúsculo, os camarins que pareciam como os do cinema e as pessoas que nos acolheram, sem nos julgar por instante que fosse, nunca esquecerei tudo aquilo que fizeram por mim.
E claro, como não podia deixar de ser, a “Salomé” a minha última actuação ao lado deste grupo, foi como que uma despida, mas sem me despedir, porque tal acto é impossível. Foi um ano complicado que com muito esforço conseguimos ultrapassar, e isto é a prova que só unidos, como uma família, foram possíveis de superar. Espero que todos estes sentimentos continuem vivos nos corações de todas as pessoas que viveram comigo estes anos.
E como poderia eu falar dos Devisa sem falar da Mostra de Teatro, uma semana que é ansiada, desde o primeiro ensaio de cada ano, vivemos a sonhar com a semana da mostra durante um ano inteiro. A montagem dos cenários, das luzes, com o nosso amigo “careca”, pessoa que ficará para sempre nos nossos corações. As peças as quais assistimos, os sentimentos que partilhamos naquele palco, as horas em que choramos, as horas em que rimos e as horas em que actuamos e até as horas em que fazíamos pequenas brincadeiras. Ah, e claro, os jantares no Vela, aquela convivência, onde conhecemos pessoas novas, onde nos divertimos verdadeiramente. Todos estes momentos só foram possíveis porque éramos um grupo e quero deixar essa mensagem para quem fica, trabalhem e vivam como um grupo, assim tudo vai correr bem.
Uma vez, quando entrei neste grupo, disseram-me o seguinte: aproveita cada momento, cada segundo nos Devisa, para um dia quando olhares para trás não te perguntares, porque não o fizeste. E foi isso que fiz, aproveitei ao máximo, dediquei-me de vida e alma a tudo isto e por isso, olho para trás e sinto-me completa. Não vejo nenhum espaço vazio no meu passado. Foi uma das melhores fases da minha vida até agora, ainda bem que num dia ganhei coragem e entrei neste grupo, porque já não consigo imaginar o meu passado, sem todos vocês, os novos, que nem sequer me conhecem, e os com quem vivi tudo isto. A todos os que entraram e que ainda estão para entrar, quero deixar uma mensagem, que não tenham medo de arriscar, que se atirem de cabeça, de corpo e de alma a tudo isto, porque acreditem, vai valer a pena.
Quero aproveitar esta oportunidade para agradecer a todos que estiveram comigo nesta jornada, aos Devisa, as pessoas maravilhosas que conhecemos em todos os locais onde fomos, a todos os que nos ajudaram e claro ao Boss (Jorge Curto), que sem ele nada disto era possível. Obrigado a todos por tudo o que fizeram por mim e por me ajudarem a tornar na pessoa que sou hoje.
E meus amigo não se esqueçam: O nosso chão é o palco, por isso vamos dar ao público o melhor espectáculo de todos! It's ShowTime!
E para a vida vos digo: in bocca al lupo!


Joana Silva (com Raquel Eiras e Crestina Martins - da esqª para a dtª) em "Justamente


      Foi com este grupo, que no meu 8º ano, entrei em contacto priveligiado pela 1ª vez com uma arte tão rica e viciante como o Teatro. Andava eu a espremer borbulhas quando me cairam em cima os tolos em que agora confio a cabeça.
   Lembro-me de nos primeiros ensaios ter bastante medo de falar pois poderia dizer algo que irritasse a figura montruosa que era o “Boss”. Mas como droga verdadeira que era, começou a ser natural e a ser bom, falar e participar em tudo com todos. Ao 5º ensaio já me considerava um viciado. Os papás já resmungavam por desligar da escola para dar poder dar uma atenção de 100% aos Devisa.
   Os ensaios corriam e Abril chegou. Tive o maior prazer da minha vida até aquela altura. Pode participar, não em palco mas como sonoplasta, com a “Just”, na 7ª Mostra de Teatro Escolar da Póvoa de Varzim, ao lado daqueles que me mostraram este mundo. É engraçado pensar agora, 3 anos depois, em toda a merda que aconteceu naquele espectáculo; dá vontade de rir. Na altura não teve piada nenhuma.
   E foi assim que me estreei “em palco”. Seguiram-se com o mesmo espetaculo uma outra Mostra de Teatro Escolar na Benedita e ainda uma apresentação esclusiva aos integrantes da escola no seu aniversário.
   A droga continua a fazer efeito, já passei por outras peças e ainda ei de pasar por mais.
   Penso que este efeito vá durar e que nunca mais vai acabar. Cenografia é o futuro!


José Torres em trabalho final do Curso de Iniciação ao Teatro, Julho 2007


São muitas as vivências que tive nos três anos dos Devisa; o que guardo na memória são os primeiro tempos, o convite estranho para ir ao primeiro Workshop de teatro, fazer tudo o que nunca me tinha passado pela cabeça fazer, aquele ginásio onde fui cascado vezes se conta, onde errei e aprendi, onde dei as melhores gargalhadas da minha existência, onde nunca chorei e não sei se será bom ou mau, onde amei esta familia que me fez pertencer...

Mas citando uma memória que tive na minha primeira produção-“O Fantasma da Ópera” que infelizmente não foi avante, a deixa por mim alterada que mais me ficou na mente foi “a Christine já está no Meu camarim?”.
 Interpretar o “Mohamed Lamine” na “Peça com Repetições” dava-me um gozo imenso no meio da actuação, mas um momento antes de entar em palco só me apetecia sair dali para fora, eram paradoxos estes que me levavam duma sensação enorme de ansiedade e terror à medida que o burburinho do público a ocupar as cadeiras era maior, para num espaço de segundos, o prazer de estar ocupar o espaço e falar para o silêncio do público  -Ela vem aí...

Várias foram as noites que depois de um ensaio de Sexta acabávamos sem surpresa no “Vela”...Restaurante este que esteve intimamente ligado aos Devisa e onde se brindou a Mostras e ao Teatro e a nós.
Era bom quando fazíamos corridinhos sem interrupções, corrigíamos erros e  jogávamos para a primeira Liga... quando o boss se passava e se virava do avesso para nos fazer “reset” e levar a peça a bom porto mas era muito mau quando se calava e só reagia com silêncio ensurdecedor.
Era muito bom chegar ao dia da estreia e ver o backstage e os projectores a serem preparados, o cheiro do pano e o calor das luzes a serem testadas, o som abafado dos passos do pessoal no palco...a música de entrada que nos punha num estado “nirvana”por alguns momentos...e nos últimos minutos antes da actuação com os nossos uníssonos “onde é que está o Porto carago”, nesse momento tudo vinha ao de cima, sorríamos, desabafávamos, chorávamos mas o Boss dizia isto mais coisa menos coisa: ”guardem a choradeira para depois, agora concentrem-se, pica e sentimento na actuação, “it`s show time”... “Queimem o lobo pessoal”.

Outra sensação boa foi actuar no Festteatro de Benedita com a peça “Justamente” para 500 pessoas embora não tivesse essa noção, a casa desabitada,fria e sem água quente onde eu, o Carlos e o Zé ficamos duas noites enquanto que o resto do pessoal foi muito bem acolhido pelos nossos anfitriões nas suas respectivas casas, o medo do Zé de ficar sozinho num quarto porque ouviu uma coruja à noite ás 3 da manhã enfim...!
Quando pensava que a VII Mostra era a última eis que dois anos depois voltei para a IX... foi demasiado bom, voltar tudo a acontecer mais uma vez.
 “Loja dos Suicídios” foi uma lufada de ar fresco, ensaiávamos nos contentores da escola em obras, num espaço reduzido mas que de alguma forma dava um ambiente e imagem mais aproximada de uma loja obscura...

Sem darmos por isso a Mostra chegava ao fim, quatro dias que gostávamos de estender por mais uma semana...era como se tivéssemos sonhado, a sensação era tal igual, ou numa linguagem mais familiar do nosso Patriarca dos Devisa, foi como um orgasmo, curto e intenso tão completamente fora do real, que este chegava a ser estranho nos primeiros tempos.
Os Devisa estarão sempre nas páginas dos melhores momentos do meu crescimento enquanto ser humano e quem sabe se não estarei de novo ás Sextas á noite fazer teatro.

Obrigado Devisas.

In bocca al Lupo


Luís Águas em “A Loja dos Suicídios


Eu adoro estar em palco. Adoro os aplausos no fim, adoro ser ofuscada e aquecida pelos holofotes coloridos com filtros. Até gosto da sensação de olhar para a plateia e não distinguir nada, ninguém conhecido, só vultos, expectativa, calor e muito espírito crítico. Será que acontece com todos? Esta cegueira filtrada para tudo o que está para lá da boca de cena que dura até o espectáculo terminar e todas as luzes se ligarem e aí sim, distinguir tudo, procurar na audiência reacções… Sinceramente não é só o meu sentido da visão que fica distorcido. A representar, a dançar ou só a falar para um público, é como se não estivesse em mim. Não vejo, ouço só a música que acompanha a actuação ou as falas de quem comigo contracena. Uma vez esqueci completamente a dor enquanto dançava um bailado inteiro apesar de ter caído no ensaio geral e estar com uma ferida feia. Estar em palco é tão bom que sabe sempre a pouco. No fim da peça dá vontade de repetir tudo especialmente porque passa demasiado rápido, porque ficamos semanas ou meses a aperfeiçoar aqueles gestos e palavras e porque geralmente há poucas apresentações do mesmo espectáculo.
Claro que a actuação em si é o auge do trabalho do actor mas representa uma parte ínfima do tempo dedicado a um projecto. Por isto mesmo é que no teatro se aprende acima de tudo o que é a dedicação e o sacrifício tanto como a projectar a voz e a controlar cada músculo para que a expressão corporal seja perfeita. É como se novos sentidos se criassem e apurassem em nós. Depois ficam tantas histórias para recordar e contar mais tarde a quem as quiser ouvir! Eu nunca me esqueço das personagens que interpretei e assim tive oportunidade de experimentar vários pontos de vista e viver muitas vidas numa só. Sempre que olho para a Lua lembro-me das falas da Pajem de Herodíade da peça “Salomé”. Fiquei com o hábito de olhar para a Lua por causa disso…
Infelizmente a vida é curta, passa demasiado depressa e eu tenho o defeito ou virtude de gostar de experimentar tudo, querer participar em muitos projectos. O ideal seria poder estar em muitos sítios ao mesmo tempo mas não posso. De repente até parece que me perdi na sequência lógica do texto. Isto sou eu a tentar justificar a minha rápida passagem oficial pelos Devisa quando afinal tinha vontade de ter-lhes feito companhia durante muitos e bons anos. Gosto de pensar que por ter estado mais vezes do lado confortável da plateia do que no palco, pertenço a um grupo de pessoas que poderiam formar o clube “Amigos dos Devisa”.  Neste clube incluem-se pais, irmãos, amigos, frequentadores assíduos das mostras de teatro, funcionários da Escola Secundária Rocha Peixoto (que foi desde sempre o ninho que nos viu nascer, abrir as asas e voar), pessoas que de alguma forma mudaram as suas vidas, fizeram sacrifícios ou sentiram-se tocadas pelas nossas iniciativas.
Quanto à minha experiência em particular, conheci os Devisa em 2004 ao ver uma peça que me marcou para sempre, ainda me lembro de algumas deixas. Na altura, para mim, aquele era o melhor grupo de teatro amador que alguma vez existira. Continua a ser. Desde então fui a todas as mostras de teatro escolar e um dos aspectos que mais me agradava era ver amigos meus a representar com tanta qualidade, a revelarem talentos para mim desconhecidos. Foi com muito orgulho e a sentir a obrigação de continuar o bom trabalho dos meus antepassados Devisa que no meu último ano na escola secundária me juntei ao grupo. Aprendi imenso, muito para além de técnicas teatrais, claro. Se eu quisesse passar para o papel tudo o que ganhei por ter estado nos Devisa ficaria aqui a noite inteira e mesmo assim o mais provável é que não conseguisse exprimi-lo. É uma vivência, uma aprendizagem que cada um faz ao seu ritmo e leva para a vida. Para mim, ajudou-me a decidir que mesmo que não siga uma carreira nas artes performativas, vou tentar sempre conciliar essa paixão com o meu percurso profissional. Se algum dia sentirem que gostariam de experimentar o que é o teatro, melhorar a vossa expressão oral, capacidade interpretativa, não hesitem. Convençam-se de que nunca é tarde nem sequer demasiado cedo (isto a propósito das idades cada vez mais jovens dos novos talentos Devisa) e só ganharão com isso. Agora vou ser extremamente previsível e dizer mais uma vez,

In bocca al lupo, crepi il lupo!


Margarida Freitas em “Salomé


Por vezes sem conta, apaguei e reescrevi este documento e nunca consegui terminar um texto que se adequasse ao que passei neste grupo, neste palco, neste local. Muito conheceram, conhecem e recordarão os Devisa como sendo um dos melhores grupos de teatro escolar do país – e digo isto com toda esta convicção porque aqui não há lugar para modéstia – mas a visualização de uma série de peças de teatro não conseguem transmitir um terço do que tudo isto significa.
Devisa? Não, não é simplesmente um grupo de teatro, nunca foi! Para mim foram cinco anos preciosos, assim com para tantos outros. Os anos que em mais crescemos, mais aprendemos, mais evoluímos em todos os sentidos. Foi onde construí aquilo a que chamam de personalidade, onde conheci pessoas que se tornaram mais do que amigos – uma família.
O sangue suor e lágrimas que demos todas as semanas, as desilusões, as perdas, … tudo é recompensado no momento em que pisamos aquele palco e sentimos que fazemos o que amamos e amamos o que fazemos.
Hoje, na Covilhã sinto mais falta daquelas sextas-feiras que de qualquer outra coisa e imaginar que me tornei na espectadora, a portadora dos aplausos, suscita-me uma curiosidade tremenda!
Um dia alguém me disse que não me podia contentar com a mediocridade, que não me bastava ser boa, tinha que ser extraordinária. Agora que entendo o que isso significa e agradeço-te, Jorge, todos os sermões, tudo o que me ensinaste. A todos os que passaram pela Família Devisa um MUITO OBRIGADO por existirem.
Por isso a todos que lerem este pequeno texto, digo apenas que foi um PRAZER fazer parte dos Devisa e participar em três Mostras de Teatro Escolar
E aos Devisas deste e dos próximos anos, não posso deixar de dizer que aproveitem ao máximo a magia de pisar o palco, porque um dia tudo vai terminar e só a saudade irá permanecer. O testemunho de dez gerações foi-vos passado: agarrem-no com as duas mãos e apaixonem-se cada dia mais pela personagem.
Conto saudosamente os dias para a Mostra…
E recordando “Peça com repetições” e William Shakespeare: O Mundo é um palco! Nós somos simples actores, o Mundo é um palco!
In bocca al lupo, 


Nádia Ribeiro em “A Loja dos Suicídios


Um dia, tinha eu uns tímidos, mas bem tímidos, dezasseis anos, foi-me lançado um desafio. Sob a forma de uma pergunta.
“Pensas mais ou sentes mais?”.
Um repto lançado com gravidade e certeza, quase como se a pergunta, pelo simples facto de ser colocada, encerrasse em si mesma a resposta. Fiquei na dúvida. Responder naquele preciso momento, em qualquer um dos sentidos, acarretaria, indubitavelmente, consequências que eu, muito embora não pudesse precisar quais, senti que seriam estrondosas. Hesitei. O Jorge esperava, fitava-me com o olhar “mefistofélico” que lhe é tão característico, saboreando a minha dúvida. Resolvi adiar. Deixar para amanhã o que se poderia fazer hoje, naquele “hoje”. Um “hoje” em que fui, arrastado por uma grande amiga e minha namorada de então, assistir a uma performance. “Desejo”. Um nome bonito e, analisado à luz do que hoje sei, terrivelmente irónico.
Passa uma semana. Novamente arrastado, encontro-me num ginásio rodeado de estranhos. Alguns. Outros, conhecia-os já de outras andanças que não estas dos “ensaios”. Apresentações feitas, sorrisos lançados como quem não quer a coisa, todo o cenário já devidamente apreendido, passa-se ao trabalho.
“Eu preferia assistir primeiro...”
“Aqui não se assiste, faz-se.”
Segunda dose de olhar “mefistofélico”. Pareceu-me melhor fazer. Melhor dizendo, improvisar. Uma palavra: “Desculpa”.
“Escolhe um número.
“Seis”.
Sorriso contido. Terceira e, até agora, a mais eficaz, dose de olhar “mefistofélico”.
“Ira”.
Dizer “Desculpa”, com um texto improvisado, com um sentimento de ira. Fiz. Antes de fazer, tropecei, estatelei-me. Talvez os primeiros nervos que senti antes de “representar”. Tropecei, mas fiz. Qualquer coisa.
Sete meses mais tarde, o burburinho do público finalmente acalma. O andaime em que me encontro é alto, muito alto. Sinto a cortina prestes a desvendar-me. Óculos de sol, casaco de cabedal. Um nome que me há-de trazer, até ao dia em que vá dormir pela última vez, um sorriso aos lábios. “Mercúrio”. Mexe-se alguma coisa dentro de mim que não sei o que é. E sinto que há, em tudo isto, algo de muito certo. Justo. Meu. Estar ali é existir de uma forma que sinto ser a mais verdadeira, para mim. Soa o violino. O pano desliza, suave, plácido. De alguma forma cósmica, a última respiração antes do mergulho é, aos meus ouvidos, como o choro de um bébé quando vem ao mundo. Uma luz reflecte-se nos óculos. É a minha deixa.
“Alto aí, Noite bela. Faça o favor de esperar um momento. Trago-lhe um recado de Júpiter, que deseja o seu auxílio...”
Naquela noite, tudo mudou.
Dezenas, centenas, talvez já milhares de ensaios depois, sou hoje fruto daquela noite. Um fruto dos Devisa. Nas palavras ditas, nos abraços fraternos, nos amigos que são para sempre, no segundo pai que é o Jorge, a raiz de muito do que agora sou pode ser aí encontrado. O orgulho que sinto por lá ter passado, por aquele ginásio, por aquelas pessoas, é difícil de exprimir. Impossível. Nada do que aqui escreva poderá, de forma alguma, aproximar-se ao assombro que sinto ao pensá-lo.
Ser um Devisa...
Como a mim me disseram muitas vezes e a outros já muitos vezes o disse, escrevo-o aqui para todos os que isto lerem, ainda que não o entendam, o possam, pelo menos, partilhar:

In bocca al lupo, crepi il lupo.






Pedro Galiza em “Marcado pelo Tipex


Os Devisa mudaram a minha vida. Hey, PUMBA! Que grande chavão! Mas até é verdade… e há poucos devisas que possam dizer que passar pelo bolorento ginásio 2 da Rocha Peixoto foi tão significativo como para mim. E é claro que não me estou a superlativar, mas eu de facto MUDEI A MINHA VIDA TODA depois de conhecer “o senhor com os olhos mais brilhantes do Mundo” (que poderia ser sinal de um problema mental ou até mesmo de uns copos de Porto a mais, mas nós sabemos que não… ahaha).
Entrei para os Devisa no meu 11º ano de escolaridade com a certeza absoluta de que se adivinhava para mim um futuro brilhante no Jornalismo, futuro esse a que eu aspirava há muitos anos, e hoje, seis anos depois de ter deixado o grupo, vejo-me com uma Licenciatura em Interpretação e a tirar um Mestrado em Encenação.
Lembro-me do exacto momento em que decidi que ia deitar fora todos os meus planos… foi em 2004 no primeiro dia da Mostra. Estávamos na montagem da “Deus” do Woody Allen e eu estava na régie com a Daniela Arnaud (eu operava som e ela luz), e no meio de toda a barafunda que é uma montagem (sobretudo uma dos Devisa) eu sentei-me e fiquei algum tempo a observar o palco. Era “o senhor com os olhos mais brilhantes do Mundo” que gritava de um lado para o outro por tudo e por nada, o Rui Careca que fumava e dizia piadas, os meus colegas que passavam nervosos com a estreia carregando tralhas ou levantando problemas idiotas e de fácil resolução (mas que num dia de estreia são sempre terríveis) e eu ali sentada, absorta. Até que a Daniela me deu um cachaço e perguntou se eu estava bem (os putos fazem isto, batem primeiro e depois perguntam se a pessoa está bem) e eu respondi “Dany, eu acho que quero isto para o resto da minha vida. Não sei ao certo o quê, mas eu acho que quero o teatro para sempre na minha vida”.
E pronto… Bem sei que parece uma história um pouco romântica, mas é a verdade, não há nada de inventado… Mal sabia eu que naquele dia estava a assinar a desgraça que viria a ser a minha vida dali em diante! Trabalho umas 18 horas por dia na faculdade desde que entrei, já fiz trabalhos como actriz, figurinista, cenógrafa, operadora e designer de luz e de som, encenadora, directora de actores; já tirei dois cursos de teatro universitário, uma Licenciatura, diversos workshops, estou a tirar o Mestrado e sei que não paro por aqui. E sei que terei uma vida miserável como qualquer artista em Portugal. E sei que serei feliz. Sou feliz. E devo-o muito ao “senhor com os olhos mais brilhantes do Mundo” que, num dia de Setembro em que casualmente me sentei na sala de convívio da Rocha Peixoto, me obrigou a assinar aquela bendita ficha de inscrição fazendo-me prescindir de todas as festas que tinha às sextas à noite até ao final do meu secundário.
Portanto, para além de pais, amigos, colegas, professores, e a todos aqueles que vamos agradecendo apoio durante toda a nossa vida, eu quero agradecer-te a ti, Jorge Curto, “senhor com os olhos mais brilhantes do Mundo”, por um dia teres visto em mim mais do que eu via, por teres exigido que eu fosse mais do que pensava que podia, por teres acreditado mais do que alguém acreditaria. Quero agradecer-te a fascinante viagem que se tornou a minha vida no dia em que te conheci.
Agora que fazemos 10 anos eu digo a todos, e em português (ou não era eu uma apaixonada pela minha língua que queria ser jornalista):

NA BOCA DO LOBO QUEIMEM O LOBO!

Eu estive nos Devisa. E os Devisa estão em mim.


Rita Nova em “Marcado pelo Tipex


Devisa. Hum bem… Admito que não me é muito fácil falar dos Devisa desta maneira pois fico sem saber o que dizer por querer dizer tanta coisa ao mesmo tempo…
Entrei  para os Devisa quando andava no 7º ano na Rocha Peixoto, eu e a minha amiga Joana tínhamos oficina de teatro e lá conhecemos o Boss e ele convidou-nos a ir aos ensaios para talvez podermos entrar na peça actual dos devisa na altura, “Deus”. Na noite desse 1º ensaio eu já me estava a preparar quando os meus pais disseram que eu não podia ir à última da hora. Disse à Joana para ela ir na mesma mas ainda cheguei a chorar por não poder estar lá também…
Na semana seguinte, segunda feira, ela vem-me mostrar o texto e contou-me tudo e eu fiquei ainda mais triste… Perguntei ao Boss se ainda podia entrar na peça e ele disse que para isso teria de decorar o texto até ali para sexta-feira… Ia ser uma das personagens do coro mas não estava habituada e tinha muito para decorar incluindo uma parte de uma música. Entre as aulas, os intervalos e em casa também, andei a decorar tudo e na sexta feira já sabia as coisas e também entrei nos Devisa.
Sim, o Boss é mau, e mete muitooo medo. Tenham muitooo medo do Boss, principalmente no 1º dia!! Credo!  Mas com o tempo lá nos vamos habituando… No dia em que entrei lá o Pedro e a Rita disseram que iam ser os nossos padrinhos. Padrinhos? Oi? Pois também os há aqui, o que eles querem é docinhos e coisas boas na Páscoa, eu sei bem!
Os ensaios foram avançando e eu adorava cada vez mais ir para lá… Sempre desejosa que chegasse a sexta feira para estarmos na galhofa e depois fazermos o que gostávamos tanto. E não era só teatro não é? É…
O 1º sitio onde fui com os Devisa foi ao Fundão no intercâmbio. Nunca me vou esquecer das cenas no sitio onde dormimos e da 1º vez que entrei em palco daquela maneira. Lá atrás mal havia espaço e era mesmo frio e os figurinos eram tipo descartáveis… Mas foi tão mágico que nunca esquecerei aquela sensação ao actuar e aquelas palmas todas… E os Devisa não são só estar em palco, são uma grande família, e não nos podemos esquecer que também somos devisa fora do palco propriamente dito…
Ensaios, ensaios e mais ensaios… Gritos, choros, palavrões, dores de cabeça e alegria. Alegria. Porque nos ensaios há um pouco de tudo desde o aquecimento, que muitas vezes aldrabávamos, até ao ir embora todos rotos, cansados e lixados…
E a mostra? OH A MOSTRA… A semana mais intensa que eu alguma vez tinha tido… Conhecer tanta gente, ver tantas peças, e todos os dias, sentir aquele nervosismo antes de entrar em palco… Podia continuar para sempre não é?... Já para não falar do vela! A comidinha de borla também é bastante agradável! E depois acaba… Parece que foi tudo um sonho assim distante… Será por isso que as ultimas actuações são sempre melhores? Começamos a sentir que esta a acabar… é emoção do início ao fim… Mesmo. Foi nesse ano que perguntei ao Boss o que era um orgasmo, porque havia referência a ele na peça. É , nos devisa aprende-se muita coisa mesmo ( eu era pequenininha pah! ). . .
Fiz parte também de uma actuação com os Devisa na piscina da escola, era para a inauguração. Foi difícil porque como era naquele ambiente tínhamos de trabalhar muito bem a voz para que toda a gente nos ouvisse. Gostei muito, foi diferente…
No 2º ano nos devisa estávamos a preparar para fazer uma peça sobre “ Confissões de adolescente”. Parecia que estava tudo a andar bem até que o Boss entrou pela porta do ginásio e disse “ o gajo está doido”. O gajo era ele. Não estava satisfeito então mostrou-nos uma adaptação dele intitulada de “ O nosso blog”… Que peça… O gozo que deu estar em palco a peça toda toda … Toda a gente adorou e era tão cheia de situações diferentes que era sempre divertido ver uma e outra e outra vez.
Nesse ano fomos a Portalegre. Ok, eu detestei Portalegre, estava tudo em obras e esburacado e pronto… Mas tirando isso foi muito bom e o público também adorou a nossa peça lá e também vimos peças interessantes. Mas não tão interessantes, certo?
A 2º mostra ainda melhor foi… Sentir de novo todas aquelas emoções. Sair a correr da escola para o auditório preparar tudo com um sorriso no rosto a cantar as nossas canções e já nervosa com a actuação! Era tão perfeito… Enchia o dia, aquela semana era tão cheia de TUDO.
O 3º ano não foi assim. Estávamos a ensaiar o “Fantasma da ópera” mas vieram os entraves… Nesse peça já não tinha personagem mas ainda queria fazer algo mas nem nisso deu. Os devisa acabaram por apresentar “ Peça com repetições”, com  apenas alguns elementos dos Devisa e encenada pela Taís. Foi diferente… Víamos a peça, gostávamos, mas queríamos demais estar ali em cima também e não sentimos o mesmo dos outros anos. Não era a mesma coisa ouvir “ ainda são dos devisa” mas não fazer nada em concreto não é…
O meu último ano “efectivo” nos Devisa foi quando estava no 10º ano. Não era suporto ser o último mas foi. Sem duvida o melhor. A Benedita!!!! Foi onde fomos apresentar a nossa peça “ Justamente”. Brilhante… A minha preferida. Os tempos que passamos na Benedita foram muito, muito bons… O pessoal foi excelente, fizemos muitos amigos, apresentamos a peça de novo e todos gostaram… Dei por mim a chorar quando fomos embora, pois foram dias muito marcantes e especiais, com pessoas também especiais à sua maneira.
A mostra nesse ano foi a minha última, mas eu nessa altura ainda não o sabia claro. Mas foi tão mágica… Aqueles momentos antes de deixarmos entrar o público, de mãos dadas na roda, com o nosso porto  e depois e ouvir bem alto “Alegria”… Cada vez que ouço essa musica ainda tremo! É tão forte, ficávamos mesmo cheios de energia e prontos para entrar em palco e dar mais do que o nosso melhor! No mínimo queríamos dar o máximo…
Num dos dias dessa mostra, eu estava prestes a entrar em cena, e nessa peça eu a Nádia e o Carlos ficávamos sentados na 1º fila e entravamos a partir daí mais no fim da peça, e entravamos aos pulinhos! Ora, nessa vez eu não tinha ido a casa de banho vezes suficientes e então foi bastante difícil entrar a saltar por ali fora e sem me descuidar! Hahaha! Coisas que acontecem…
No ano seguinte houve muita, muita, muita confusão… Quando nos reunimos para vermos que peça íamos apresentar o Boss mostrou-nos uma intitulada “ Sonho de uma noite de Inverno”. Mas a maioria dos devisa não gostou muito da peça e preferiu optar pela “ Salomé”. Errado. Primeiro porque o Boss teve muito trabalho a fazer a peça, e segundo porque isso separou um bocado o nosso grupo… Mas só mais tarde é que notamos nisso e levamos a mão à cabeça.
Começamos então a preparar a Salomé, mas as coisas não estavam a correr nada bem. O pessoal não se estava a esforçar o suficiente, não dava o máximo, havia sempre alguém a faltar aos ensaios, o texto não estava lá, uma pessoa acabou por ter de sair dos devisa por causa dos pais e a coisa não andava para a frente. O Boss mudou a peça um bocado por causa da falta de pessoal mas continuou a não resultar e então ele passou-se . A maioria sabe como é quando ele se passa mesmo! Disse-nos das boas. Ficamos por nossa conta. Juntamo-nos durante uns dias para trabalhar na peça sozinhos e lhe mostrar que estávamos prontos mas quando fomos ter com ele  disse-nos que se quiséssemos levar a Salomé a palco o podíamos fazer mas que ele não seria bem o encenador e que apenas nos iria ajudar no que precisássemos e assim. E nos aí pensamos “ mas isso não são os Devisa!!!! “.  Foi aí que eu saí. Eu fui uma das pessoas que preferiu a Salomé ao Sonho de uma noite de Inverno mas, não me importava nada de trabalhar na outra peça se assim ficasse decidido. Também me esforcei naqueles dias para fazer com que resultasse mas já estávamos todos separados, cada uma puxava para o seu lado, não estávamos unidos, o Boss tinha-se ido embora e, para mim, aquilo de Devisa tinha praticamente nada por isso fui-me embora.
Nesse ano como o Boss não sabia se a Salomé ía estar minimamente excelente para a por em palco, fez também uma peça com o Pedro, a Rita e a Crestina e acabou por levar ambas ao palco.
Se quando vi a peça vi a mesma magia dos Devisa? Não sei bem… Foi de longe a peça menos boa que eu vi dos devisa embora tivesse gostado muito. Mas faltava algo. E custou, custou estar no público sabendo que podia ter estado ali com eles. Se me arrependi? É difícil dizer, às vezes penso que sim, outras que não… Só saberia responder a isso se tivesse a mesma situação em mãos e tivesse de decidir de novo, porque quando saí, eu não sabia quem eram aquelas pessoas que estavam a olhar para os papéis comigo… No final chorei, é sempre uma emoção muito grande mesmo quando só assistimos! Eu já sabia que no 12º não ia estar nos Devisa, mas não estava a contar que no 11º também já não estivesse. Ainda assim, ajudei no que foi preciso.
Os devisa ajudaram-me então a crescer. É engraçado, tendo entrado lá no 7º ano era, junto com a Joana, muito mais nova que os outros. E mesmo no último ano eu e ela éramos as pessoas mais antigas no grupo e ainda assim tinha lá gente bem mais velha do que nós! Por isso fomos e sempre seremos as piolhas, assim como a Nádia que entrou mais tarde. Piolha morena, piolha loira e piolha molata.
Nunca me vou esquecer de todos aqueles momentos nos Devisa. Desde que chegávamos à Rocha de noite e nos púnhamos a brincar nos colchões do ginásio e depois o Boss aparecia aos berros chateado por ainda não termos feito o aquecimento, às vezes em que o sono era tão grande que era impossível ter os olhos abertos nos ensaios, até que se soltava um “ ****” qualquer do Boss, àquela confusão de gente numa esquina todos aninhados porque fazia um frio do carago naquele ginásio, aos preparativos dos figurinos, adereços e cenários, à antestreia, aos intercâmbios malucos em que conhecíamos muita gente, a todos os segundos da mostra, quando nos abraçávamos com força a chorar antes de cada actuação e depois o repetíamos quando acabava, aos momentos atrás do palco, nervosos por entrar e a rir do que já se passava lá em cima, ao batimento do meu coração quando a 1º música anunciava o inicio da peça e agora era só andar para a frente, ao entrar por um lado do pano para agradecer por entre tantos aplausos, aos pulos, gritos e gargalhadas no final de tudo por ter corrido tudo bem e cada vez melhor, àquele sentimento de grandeza, de quando pisamos o palco e sentimos que podemos ser quem quisermos e fazer o que quisermos sem ninguém nos dizer nada senão “parabéns”, aos jantares no Vela atlântica em que comíamos o que quiséssemos e enfardávamos tanto que depois era bonito na peça, às musicas e cantorias quando caminhávamos juntos até ao auditório, quando o Sofia vinha com aquela voz maravilhosa a cantar o fantasma da ópera e nos calava a todos , ao “ Onde é que está o leite???!!!” que gritávamos na roda,  à amizade que construímos juntos nos Devisa e que nos torna numa grande família que, acredito, ainda tem muito para crescer…  Todos, todos, todos esses momentos e muitos mais me marcaram, e fizeram dos Devisa uma parte fundamental da minha vida e do meu crescimento, uma parte que eu nunca abdicaria se voltasse ao 7º ano e tivesse de novo a chance… Sei que há gente que me julga em segredo por eu ter saído dos Devisa mais cedo do que o esperado, mas eu sei porque o fiz e eu estava lá pelos Devisa, se senti que não estávamos todos lá pelo mesmo, unidos e fortes, então não era aquilo que eu queria ou que ia valer a pena. Senti-me sozinha, já não havia aquela união do grupo, fundamental.
Se tivesse agora tempo e me convidassem para mais uma peça com os Devisa, eu ía! Ía mesmo, tenho tantas saudades desses momentos.
Aos mais recentes membros da grande família dos Devisa deixo muita força e amor. Não o façam porque gostam mas sim porque o sentem dentro  e vocês. Preparem-se. Ser Devisa vai ser uma aventura da qual nunca se iram arrepender ou esquecer. Se acham que já cresceram tudo, estão muito enganados. Muito provavelmente vão descobrir nos Devisa, coisas sobre vocês próprios que ainda não sabiam ou nem suspeitavam.
 Ouçam o Boss porque ele é atinadinho e sabe o que diz e já levou com muitos devisa pelo caminho… E aproveitem, vivam cada segundo, eu sei que às vezes vão estar nos ensaios e querer ir embora e vão estar fartos daquilo, mas tentem ver que não vai durar para sempre. Não se isolem, não prefiram estar com este ou aquele, escolham estar todos juntos, brincar todos juntos, rir todos juntos, sair todos juntos e ser Devisa todos juntos. Porque só assim resulta. E, se tiverem algum problema, não hesitem em contá-lo na roda, nos ensaios. Não hesitem mesmo, porque vão ter todas aquelas pessoas que vos vão ouvir e que vão estar lá para vos apoiar e ajudar no que for preciso. Como já nos disseram, a própria vida é um palco, logo ser Devisa é estarem unidos quando alguém tem um problema ou algo não bate certo também. E não tenham medo de dizer o que pensam, não guardem para dentro, pois isso no final vai trazer ainda mais problemas acreditem! Querem-se passar com alguém ou dizer algo que vos rói o miolo? Então metam-se no meio da roda e digam… deitem cá para fora e tudo vai ficar melhor… Quando estava nos devisa houve ensaios que foram só a discutir sobre isto e aquilo, e foram muito significativos. Aprendam as músicas todas e também os jogos para poderem depois ensinar a quem entrar nos Devisa depois de vocês. Não tenham medo de actuar, não tenham medo de experimentar, mesmo que dê em caca. Mostrem o que valem e sejam vocês mesmos, vão ser acolhidos assim mesmo, como são. E depois, em cada actuação cantem a Alegria e gritem na roda, saltem, riam, sejam loucos à vossa maneira e depois, depois  “ It’s show time!!” , brilhem.
Agarrem esses tempos. In buoca lupo, crepi lupo. Obrigada a todos.


Vânia Costa (ao centro, com Carlos Veiga e Nádia Ribeiro) em “Justamente


Por incrível que pareça, estou escrevendo no dia que faz 7 anos da minha estreia em palco com os DEVISA.
Grandes momentos foram vividos durante a minha estadia nos Devisa, lágrimas, sorrisos, gargalhadas, medo, pânico, nervosismo… um misto de sensações que não é possível de descrever.
Foi nos Devisa que foi plantado o “famoso” bichinho do teatro em mim. E diga-se de passagem que ele é muito bom! Mesmo viciante.
Durante os meus três anos nos DEVISA, aprendi que o teatro não é apenas os actores que estão em palco, mas sim toda uma equipe por trás desde os que fazem a Luminotecnia, Sonoplastia, os que ajudam na escolha dos adereços e figurinos, contra regra e apoio.
Foi onde aprendi também que não existem grandes e pequenos papéis, e sim pequenos e grandes actores.
Nunca mais me esquecerei da minha “Apresentadora”, me deu tamanha felicidade interpretá-la, os ensaios eram fantásticos, me divertia imenso e sem falar no grande desafio de não falar tão “abrasileirado”! Dizer o distinguir em vez de distinguir foi difícil e levei muito nas orelhas, não foi Boss?
O que mais me marcou foi quando o Boss teve a feliz ideia de me dar um papel de gato… ai! Como sofri, odiava ser o gato, cada ensaio era uma tortura para mim! Até que no dia da estreia o Boss ao me maquiar me disse: Goza, Brinca, se diverte é para isso que serve o palco… mas ainda relutante faltava minutos para começar a Eduarda me diz que se eu não quisesse entrar, para tirar a roupa que ela ia no meu lugar… sobe no palco… aproveita e diverte-te.
Aquelas palavras entraram de tão modo na minha cabeça que quando a música da minha entrada começou, o coração bateu mais forte, fui contagiada por tamanha emoção… que virei uma GATA mesmo! Dancei, saltei como um gato… Meu deu muito gosto fazê-lo! Amei! Surpreendi a todos e a mim própria! O Boss no fim me disse que sabia que seria assim e que confiava em mim. Foi fantástico!
No meu último ano, fui apelidada pelo Boss de “Cota”… por ser a mais velha do grupo… tadinha de mim L!!!
E foi na última peça pelos DEVISA, que mais brinquei, improvisei… cada espectáculo havia algo novo… acho que foi uma bela despedida.
E foi assim,
Três anos ótimos, com fantásticos momentos que ficarão para sempre na minha memória.

Um obrigado ao Boss e á todos aqueles que proporcionaram e participaram directa ou indirectamente de todos esses momentos.

Um beijo bem grande da Brasiloira…


Zita Corrêa em "Names"