Grupo? O que é um "grupo"?
Posted: 24 de Outubro de 2010 by O Boss inNa 6ª feira passada veio este assunto à baila...
O que fazer (e como o fazer) quando se juntam 23 pessoas, unidas no objectivo de voar no espaço do teatro, mas com motivações, personalidades, vidas e desejos, por vezes, muito diferentes?
Aparentemente, e apenas aparentemente, a resposta é simples. Não me considero nenhum perito nesta matéria, mas sugiro a seguinte "check list":
- Existe a paixão, ou no mínimo, a vontade de fazer teatro?
- Estou disponível para me dar a conhecer aos outros, sem me refugiar na péssima desculpa, normalmente egoísta, de que não sou obrigado a partilhar nada com eles?
- Estou disponível para ouvir, ver e perceber os outros como pessoas que têm o mesmo direito que eu a afirmarem-se?
- Estou disposto a aproveitar todos aqueles breves momentos para comunicar com eles?
- Estou preparado para assumir as minhas responsabilidades perante eles e ser verdadeiramente solidário com eles?
A verdadeira magia do teatro não está no estrelato, no egoísmo nem no somatório estéril de diferentes personalidades... que, por acaso partilham o palco numa peça (por muita qualidade que tenham os actores e por muito bem que representem essa aparente coesão).
A verdadeira magia surge quando aproveitamos esta vontade de fazer teatro para a transformar numa paixão partilhada com outros e, ao partilharmos o mesmo palco, nos assumimos conscientemente como um "grupo" (gosto mais da palavra núcleo)!
Mas esta magia, contrariamente à metáfora da máscara, só surge quando nós próprios a retiramos e mostramos a nossa face verdadeira, sem receios, reservas ou preconceitos: é a nossa oportunidade de enfrentar os nossos medos, as nossas limitações, as nossas incertezas e inseguranças e aprender a ultrapassá-las.
Esta magia descobre-se nos outros, quando todos assumimos a tremenda responsabilidade de ouvir o que o nosso companheiro tem para dizer, estar atento à sua presença, vê-lo e aceitá-lo como ele realmente é.
Não precisamos de ser os melhores amigos, mas temos de nos assegurar que todos sentimos a confiança necessária em nós mesmos e no outro, para que nos possamos exprimir livremente, sem o receio de sermos ignorados, desconsiderados, incompreendidos ou, pior ainda, recusados.
Mas fica a pergunta: o que aconteceria se a peça fosse interpretada por mim, juntamente com os meus melhores amigos? Pura magia?
No ano passado, no final da peça "Apocalipse", a melhor crítica, aquela que me fez sentir que, afinal de contas, tudo isto vale a pena, foi aquela afirmação "parabéns, conseguiste formar um grupo".
É possível, se todos o quisermos, se fizermos por ser melhores pessoas, se assumirmos as nossas responsabilidades, se formos solidários e se estivermos atentos e trabalharmos em conjunto: sem pressa, sem forçar, mas conscientes de que muito depende de nós próprios e de aproveitarmos as oportunidades para dar, aos que estão à nossa volta, uma razão de existir, de trabalhar com eles, de sonhar com eles, de assumir esse compromisso connosco e com eles.
A nossa peça, este ano, é sobre isto mesmo: ignorar o outro, é matar o outro.
O meu apocalipse para este ano é conseguir, de novo, ter um núcleo, um grupo de pessoas que, através do teatro, se transformam em actores conscientes no palco das suas vidas, em cidadãos solidários na sociedade em que se inserem, e em público crítico da desumanidade.
Vamos fazer magia!
Allegria!
São únicas as suas palavras, e mais ainda aquilo que representam.
|Torne-se sábio, aquele que as absorve na sua fé!|
Foi um previlégio te-lo conhecido, e será, sempre, uma honra ter partilhado consigo um tempo e um espaço cheio de emoções, sabedoria, e acima de tudo, repleto de vida!
Obrigada!